Da floresta à Naturaltech: Projeto leva 8 OSPs para um dos maiores eventos de produtos saudáveis da América Latina

Em estandes, rodadas de negócios e momentos de degustação, o objetivo foi ampliar a visibilidade das organizações e criar parcerias duradouras

Açaí, cacau, café, tambaqui, castanha, farinha e pirarucu – produtos da Amazônia que carregam sabores, saberes e a história das famílias produtoras e agroextrativistas – ganharam destaque na 20º edição da Naturaltech, um dos maiores eventos de produtos saudáveis da América Latina, que reuniu mais de 61 mil visitantes de 53 países neste ano. Com o apoio do Projeto Rural Sustentável – Amazônia, 8 Organizações Socioprodutivas (OSPs) marcaram presença, levando produtos da sociobiodiversidade amazônica ao estande, participando de rodadas de negócios e vendo sua produção em receitas elaboradas por chefs renomados. A participação teve como objetivo ampliar a visibilidade das organizações, mas muito além disso: criar parcerias duradouras e acessar mercados mais competitivos. 

Participação das OSPs na Naturaltech amplia oportunidades de negócios

A Naturaltech mais uma vez se consolida como o maior e mais importante evento de produtos saudáveis e sustentáveis da América Latina, reunindo centenas de marcas e visitantes de diferentes países em um ambiente para se conectar com o mercado e gerar negócios. Para quem vive e produz na Amazônia, o evento abre oportunidades reais de dar mais visibilidade aos produtos da floresta e de se aproximar de novos parceiros e mercados.

No caso das OSPs apoiadas pelo Projeto, as conexões foram um dos destaques. A avaliação com as organizações participantes identificou os tipos de contatos estabelecidos, com maior presença de consumidores finais, distribuidores, restaurantes e organizações parceiras, ampliando as chances de novos negócios. Esse potencial também aparece em outros números: 78% dos contatos têm perspectiva de gerar negócios, enquanto 22,2% indicam possibilidade, o que reforça o impacto da participação na vida das famílias produtoras. 

Conectando quem produz com quem consome 

Da floresta direto para a Naturaltech: quatro dias dedicados a criar pontes entre quem produz, quem comercializa e quem consome em uma programação que oportunizou as oito OSPs contarem a história por trás dos produtos, trazerem seus diferenciais para o mercado e construirem parcerias de longo prazo, como conta o Coordenador da frente de cadeia e mercado do Projeto, Pedro Xavier: “A participação do PRS-Amazônia na Naturaltech vai muito além da exposição de produtos. Nossa expectativa é posicionar as organizações socioprodutivas da Amazônia em ambientes estratégicos de mercado, aproximando produtores, cooperativas e associações de potenciais compradores, como distribuidores, revendedores, chefs, nutricionistas, varejistas e parceiros institucionais capazes de gerar oportunidades concretas de negócios”.

Segundo ele, espaços como esse oportunizam o aprendizado e o fortalecimento institucional, ajudando as OSPs a entenderem melhor as exigências de mercados mais estruturados, a negociar com mais segurança e a ampliar sua rede de contatos com mercados comprometidos com sustentabilidade e impacto socioambiental. 

Para quem atravessou o país trazendo na bagagem os produtos e a identidade amazônica, a participação na Naturaltech foi um momento de muito orgulho e representatividade.  A manejadora da ASPROC, Kilvilene Cunha, do Médio Juruá, de Caruaru (AM), conta que os quatro dias de feira ampliaram a voz das comunidades e mostraram a força do trabalho coletivo realizado no município. “Essa experiência desses quatro de feira dá um conforto no coração  por ter a oportunidade de trazer a realidade da nossa comunidade, trazer as vozes do nosso território através do manejo, contando esse trabalho tão importante que as comunidades fazem de preservar o meio ambiente e de todo o ecossistema aquático em que o pirarucu vive. E também os contatos importantes que fizemos aqui, perspectivas de futuras parcerias que vão ajudar a vender ainda mais o Pirarucu da marca Gosto da Amazônia”, conta emocionada. 

 
Estande do PRS - Amazônia na Naturaltech

Do outro lado do balcão, os produtos chamaram a atenção do nutricionista clínico e esportivo que está há cerca de dez anos no mercado, Mikhael Fiúza, e que visitou a Naturaltech em busca de novidades e tendências para inserir em suas prescrições. Quando conheceu os produtos das OSPs parceiras, ele encontrou algo que considera essencial: confiança na origem dos alimentos. “Eu vim conhecer a Naturaltech para ver as tendências e eu nunca tinha provado [o açaí], junto com uma farinha de mandioca e um peixe típico deles que é o pirarucu, entre outros peixes. Então, assim, está sendo uma experiência incrível, porque vai agregar muito nos meus atendimentos. Pra mim, precisa ter confiança no que você está prescrevendo, porque a pessoa vai consumir, não é uma roupa que ela veste e se não cair bem, ela joga fora. Então, acho que acima do sabor tem que ter qualidade e conhecer a procedência do produto. E aqui a gente consegue encontrar isso”, ressalta.

A participação na feira buscou conectar, de forma prática, as diferentes etapas da cadeia produtiva – no estande, nas rodadas de negócios e nas degustações. As OSPs compartilharam todo o potencial dos produtos da sociobiodiversidade, enquanto o mercado se mostrou interessado por produtos com qualidade, rastreabilidade e impacto.

Jantar no Banzeiro: uma noite para saborear o gosto da Amazônia 

Os produtos das oito OSPs parceiras também ganharam protagonismo fora dos pavilhões da feira. Em um jantar realizado pelo Projeto no restaurante Banzeiro, em São Paulo, mais de 60 convidados – entre chefs, nutricionistas e representantes de grupos de distribuição – participaram de uma experiência que uniu gastronomia, histórias e conexão com potenciais compradores.  O renomado chef Felipe Schaedler utilizou os produtos das organizações para preparar um menu especial com pratos como tambaqui com vinagrete de maxixe e pirarucu com molho de açaí e farinha Ovinha, saboreado enquanto as famílias produtoras compartilhavam suas trajetórias e o trabalho desenvolvido no território. 

O chef Felipe Schaedler destacou o papel da gastronomia como ferramenta de valorização dos produtos da sociobiodiversidade amazônica e da sustentabilidade.“Hoje é uma noite muito especial aqui no Banzeiro, é um momento da gente confraternizar não só a gastronomia, mas todas as pessoas que estão verdadeiramente preocupadas com o nosso ecossistema. Quando nós abrimos o Banzeiro, em 2019, eu sempre dizia que o meu sonho era que esse restaurante se transformasse numa espécie de embaixada da Amazônia. Então, é um daqueles dias em que eu estou realizando o meu sonho”, conta emocionado. 

Para Pedro Xavier, o jantar mostrou a capacidade das OSPs de entregarem produtos de qualidade aos principais centros consumidores do país, sem deixar a desejar na qualidade. “Muitos desses chefs ficaram impressionados, sabendo que um produto que tem a capacidade de sair de um lugar tão longevo e gestionado de uma forma tão profissional, chega nesses mercados complexos de Sudeste, do Centro-Oeste, do Nordeste, a partir de uma cadeia geograficamente alongada, estendida, mas com uma capacidade de encantar os clientes desses restaurantes e de aproximar esses clientes da base produtivas”, destaca. 

O jantar trouxe o sabor marcante e autêntico dos produtos, mas também o seu maior diferencial: por trás de cada um existem organizações socioprodutivas e famílias que trabalham diariamente para conservar a floresta e gerar renda. São histórias que mostram o impacto que cada alimento tem no território, quando comercializados, e que vale a pena conhecer de perto.

Jantar no Banzeiro, em São Paulo (SP)
Menu especial feito pelo chef Felipe Schaedler

Da floresta para novos mercados: conheça as histórias que acompanham cada produto

Por trás de cada barra de chocolate, café, polpa de açaí, pirarucu e tambaqui presente na Naturaltech existe uma história, saberes ancestrais e uma relação profunda com a floresta. Uma delas é a de João Lunelli, da Cacau Xingu – um empreendimento familiar do município de Brasil Novo (PA), associado à OSP FVPP. Na propriedade da família, o cacau orgânico é cultivado em sistemas agroflorestais, aliando produção e conservação da natureza. E é dessa relação de respeito que nascem chocolates artesanais que carregam consigo os diferentes sabores e a identidade da Amazônia.

João Lunelli vendendo seus produtos no estande do PRS – Amazônia

Participando pela primeira vez de uma feira como a Naturaltech, João destacou a oportunidade de apresentar a marca da sua família para novos consumidores e, com isso, prospectar parcerias. “Olha, essa feira é bastante interessante. Eu, particularmente, ainda não tinha participado de uma feira grande assim. Mas a gente tá aqui pronto para atender a demanda desse público maravilhoso que é o novo público do Cacau Xingu, é o novo perfil”, compartilha. 

Segundo João, a participação na feira também abriu espaço para mostrar o diferencial dos seus produtos: “O nosso diferencial é trabalhar com a inclusão de produtos da floresta nas receitas. Fazemos todo o processo da cadeia produtiva, desde o plantio até o produto final, seguindo princípios agroecológicos e boas práticas para garantir qualidade”, destaca.

A mais de 2 mil quilômetros de Brasil Novo (PA), mora outro João, que seguiu um caminho diferente: em vez do cacau, dedica-se ao cultivo de café robusta. Ele e sua família têm uma agroindústria chamada Café da Luz, em Cacoal (RO), associada da OSP Coopercacoal, que também marcou presença na feira. João Alves da Luz e sua esposa Néia da Luz  produzem café robusta amazônico há anos nas Matas de Rondônia, com seus filhos e netos, conciliando qualidade, trabalho em família e cuidado com o meio ambiente. Ele fala sobre o jeito de produzir da família. “Esse café é produzido lá na nossa propriedade, uma propriedade familiar. Lá, a gente produz com qualidade, sustentabilidade, com coleta seletiva, para entregar a melhor qualidade para o consumidor final. É um trabalho feito com todo amor, com carinho e dedicação. Toda a família empenhada na qualidade e na sustentabilidade do nosso produto”, conta.

João Alves da Luz e sua esposa Rubim da Luz no estande do PRS – Amazônia

Na feira, João e Néia apresentaram diferentes tipos de café produzido na propriedade, como o café natural e o café fermentado. “O café fermentado é um processo que a gente faz pós colheita para selecionar os grãos e colocar em biodigestores para fermentar e mudar as características do café. Fica um café mais frutado, mais licoroso, com acidez mais prolongada e que vai deixar um retrogosto depois bem adocicado. Essa é a diferença da fermentação. Enquanto o café natural vai ficar mais achocolatado, com mais frutas secas, com especiarias. E esse processo todo é feito com qualidade e sustentabilidade lá na Amazônia”, compartilha. 

Ao conhecer a dimensão do evento, João conta como a feira vai impactar  no crescimento e amadurecimento da marca Café da Luz.“Quando a gente chegou aqui, a gente viu o tamanho dessa feira, a importância dessa feira para nossos produtos naturais, nossos produtos amazônicos. Isso aqui vai abrir portas imensas, não só para o nosso café, mas para todas as agroindústrias que estão aqui. É uma vitrine para nós e para o mundo”, compartilha.

A cerca de três dias de viagem da casa de João da Luz até o município de Carauari (AM), no Médio Juruá, o trabalho da OSP ASPROC também chama a atenção no manejo sustentável do pirarucu. É desse território que surge a voz de Kilvilene Cunha, da diretoria da ASPROC, que também participou da feira levando a marca coletiva Gosto da Amazônia. 

Kilvilene Cunha, da OSP ASPROC, com a marca Gosto da Amazônia

Ela conta que sua comunidade foi a primeira a manejar o pirarucu, iniciativa que logo se transformou em um trabalho coletivo, de todos para todos. “O diferencial do pirarucu Gosto da Amazônia é que quando você está consumindo esse peixe, não é só uma proteína. Você está consumindo um peixe que preserva a floresta e que gera renda para as comunidades tradicionais que fazem esse serviço ambiental lá no território”, explica. Kilvilene ainda conta que a força das mulheres faz toda a diferença. “A minha participação na OSP é um exemplo de que não existe manejo sem mulheres. Elas participam de quase todas as etapas, desde a contagem até a limpeza e o beneficiamento”, relata. 

Para ela, a feira também representa um momento de troca de experiências e de construção de novos caminhos. “Esses quatro dias  de feira dão um conforto no coração por ter a oportunidade de trazer a experiência da nossa comunidade, trazer as vozes do nosso território através do manejo, contando esse trabalho tão importante que as comunidades fazem de preservar o meio ambiente e de todo o ecossistema aquático em que o pirarucu vive, e também de fazer contatos, como aconteceu aqui, de futuras parcerias que vão ajudar a vender ainda mais o pirarucu da marca Gosto da Amazônia”, compartilha. 

Já seu Valdecy José, da COAPRAV, cooperativa do município de Ariquemes (RO) focada em fortalecer o pequeno produtor, agregar valor aos produtos rurais e facilitar a comercialização, conta que o Projeto tem engajado os piscicultores da região. Na Naturaltech, ele levou seu tambaqui e compartilhou os resultados dessa parceria. “Olha, essa parceria nos motivou a continuar criando peixe com qualidade, com todas as normas de orientação técnica, e a gente tá seguindo, tá procurando o Projeto, e ele está nos ajudando, nos orientando tecnicamente. Desde que o Projeto iniciou, houve uma motivação muito grande dos cooperados, dos piscicultores. Então, a gente acredita que cada vez mais vai haver motivação para continuar produzindo o tambaqui com qualidade”, conta. 

Além dessas OSPs, outras organizações socioprodutivas participaram da Naturaltech levando também sua trajetória com a produção sustentável e trabalho coletivo na floresta. É o caso da Cofruta, de Abaetetuba (PA), fundada em 2002, formada por agricultores familiares que transformam frutos da sociobiodiversidade em polpas, óleos e manteigas vegetais. 

Já a OSP Lacoop Brasil, de Rolim de Moura (RO), marcou presença apresentando o Café Lagoa da Mata, Robusta Amazônico produzido por famílias agricultoras da região. Desde 2017, a cooperativa atua no fortalecimento da cafeicultura familiar, investindo na qualidade dos grãos e na valorização dos produtores que cultivam café nas matas de Rondônia

Também participou a OSP APAFE, da Flona de Tefé e entorno, criada em 2003 e formada por mais de 400 produtores agroextrativistas que atuam em diferentes cadeias produtivas — como castanha-do-Brasil, farinha de mandioca, açaí, borracha, óleos, banana e pescado. 

O coordenador da frente de cadeia e mercado do Projeto, Pedro Xavier, fala que o principal legado deixado pela feira está na construção de vínculos que seguem para além do evento: “O maior valor gerado está na preparação dessas organizações para ocuparem, de forma cada vez mais consistente, espaços de mercado que reconheçam a qualidade, a origem e a história por trás dos produtos amazônicos. O projeto contribui não apenas para ampliar a visibilidade das OSPs e gerar novas oportunidades de negócios, mas também para fortalecer sua autonomia e sua capacidade de inserção em mercados mais exigentes”, explica.

Segundo ele, a Naturaltech não se encerra no último dia da feira; ela inaugura uma nova etapa de relacionamentos comerciais, aprendizados e oportunidades que continuarão sendo desenvolvidos nos próximos meses. Continue acompanhando essas e outras histórias pelos canais de comunicação do Projeto! 

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