Dos lagos de Maraã, onde o pirarucu é manejado de forma sustentável pela APSSJ, às áreas de produção da ACINEPK, o Projeto Rural Sustentável – Amazônia reuniu representantes do Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais (DEFRA), da Embaixada do Reino Unido no Brasil, do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para conhecer de perto a realidade amazônica, os modos de vida de famílias agroextrativistas e pesqueiras e os impactos do Projeto nos territórios. A programação contou ainda com a entrega de Benefícios Coletivos para fortalecer as organizações do manejo e coleta à comercialização, como um barco para o transporte do pirarucu e um viveiro de mudas de castanheira. Essa troca com as comunidades é fundamental para promover investimentos futuros conectados às demandas das organizações e um desenvolvimento que gere oportunidades reais, mantendo a floresta em pé.
Durante a viagem, Hannah Ashley, representante do Governo do Reino Unido (DEFRA), destacou como os modos de vida das comunidades locais contribuem diretamente para o desenvolvimento sustentável na Amazônia. “Através do PRS, entendemos como as comunidades pescam no rio, como elas cuidam e são guardiãs da água e da floresta. Acho que isso ficou muito claro, assim como a compreensão de como pode ser agregado valor [por meio das ações do Projeto] ao longo de toda a cadeia produtiva”, conta.
Para ela, essa vivência reforçou a importância de iniciativas que conhecem de perto o contexto local e produtivo e cada pessoa beneficiária. “O principal aprendizado que levarei de volta para o Reino Unido é que projetos como esse são uma parte fundamental de como podemos apoiar as comunidades para que prosperem em seu ambiente e mantenham uma renda e produção sustentável”, explica.
Já o Coordenador operacional do PRS – Amazônia, Eric Sawyer, destacou o legado que o Projeto vem construindo junto às comunidades. “As visitas e entregas realizadas juntamente pelos parceiros DEFRA, BID e MAPA nos trazem a certeza que todo o esforço que vem sendo feito para estruturar a base produtiva, para melhorar a capacidade das organizações locais e deixá-las mais aptas para acessar os mercados se encaixa de uma forma que a gente vai conseguir refletir em impactos reais para renda dessas populações, na medida em que a gente mantém a floresta em pé. Então, estamos muito contentes de ter recebido os parceiros para que eles possam acompanhar de perto esse processo e conhecer a realidade que eles vêm transformando de uma forma muito mais próxima”, conta.
A missão começou no Instituto Mamirauá, em Manaus (AM), onde o grupo realizou uma imersão no contexto amazônico e conheceu de perto iniciativas de pesquisa, conservação da biodiversidade e desenvolvimento sustentável, com destaque para o manejo do pirarucu. Logo depois, a programação seguiu para as OSPs das cadeias do pirarucu e da castanha-do-brasil, onde o grupo acompanhou o dia a dia das famílias pesqueiras e agroextrativistas e as ações do Projeto.
Do Lago de Maraã à comercialização: drone e embarcação são entregues para fortalecer a cadeia do pirarucu na APSSJ
Chegar à Associação dos Produtores Rurais do Setor São José, em Maraã (AM), já é uma experiência que ajuda a entender um pouco da complexa logística amazônica. Localizada a cerca de 615 km de Manaus, a comunidade só pode ser acessada pelos rios da região – e foi navegando por essas águas que o grupo chegou à Organização Socioprodutiva (OSP) parceira e foi recebido com muita alegria pelas lideranças comunitárias, associados e associadas.
Após a recepção calorosa da comunidade, a visita possibilitou entender como a união entre conservação e tecnologia pode fortalecer o trabalho das famílias pesqueiras. Uma das atividades foi a demonstração do uso de drones para o monitoramento dos lagos e o manejo sustentável do pirarucu – a ação faz parte das capacitações promovidas pelo PRS – Amazônia em parceria com o Sebrae Amazonas.
Na região, os(as) manejadores(as) precisam percorrer longas distâncias e permanecer por dias na floresta para fazer a contabilização dos pirarucus e, com isso, programar a captura. Mas para facilitar essa atividade, a comunidade recebeu do Projeto um drone e certificados pela participação na capacitação de operação do equipamento. “Receber esse drone representa um avanço muito importante para a APSSJ e para todos os associados. Esse equipamento vai fortalecer as atividades de manejo do pirarucu, auxiliando no monitoramento das áreas de trabalho, no acompanhamento dos lagos e na coleta de informações que contribuem para uma gestão mais eficiente dos recursos pesqueiros”, compartilha.
Se os drones representam um novo olhar sobre o manejo, a entrega de uma embarcação simboliza um passo a mais para fortalecer o beneficiamento e a comercialização do pirarucu. Para as 62 famílias pesqueiras da comunidade, o barco vai transportar o pescado da área de captura até os locais de beneficiamento e depois aos municípios próximos para a comercialização. A presidente da associação, explica: “O barco é uma das principais ferramentas que a gente utiliza para fazer toda essa cadeia do pirarucu. Ele sai do lago e vai para a nossa base flutuante, onde acontece todo o processo de beneficiamento, por isso esse era um dos pontos que mais geravam gastos na nossa produção”, destaca.
O dinheiro, que antes era destinado ao aluguel de embarcações, agora poderá ser destinado a outras demandas da comunidade, contribuindo para melhoria da qualidade de vida das famílias da região. Para quem participa do manejo, a nova embarcação simboliza o reconhecimento de um trabalho construído coletivamente ao longo dos anos.“Hoje, graças ao apoio de todos, estamos muito agradecidos. Não só eu, como presidente, mas todas as famílias que fazem parte desse coletivo. Isso faz a gente continuar acreditando e lutando ainda mais, porque, juntos, os desafios se tornam menores”, finaliza Lillian.
A entrega emocionou também Hannah Ashley, representante do DEFRA. Para ela, conhecer a comunidade e acompanhar esse momento foi uma oportunidade de ver de perto os resultados do PRS – Amazônia. “É uma verdadeira honra estar aqui para esta cerimônia e entrega do barco. Fiquei realmente tocada com as palavras da Lillian e com o orgulho que ela demonstra pela sua comunidade. Estamos muito felizes em ver os benefícios que o programa trouxe para vocês. E, mesmo com o encerramento do Projeto, queremos levar essas lições para inspirar futuras políticas e ações”, compartilha.
O grupo também teve a oportunidade de visitar o lago onde a comunidade realiza o manejo sustentável do pirarucu. Os manejadores e manejadoras explicaram como é feito o trabalho de contagem e monitoramento dos peixes – etapa fundamental para garantir a conservação da espécie e a renda das comunidades. Durante a visita, o grupo de representantes acompanhou de perto os saltos dos pirarucus na superfície da água, um comportamento característico que ajuda os manejadores a estimar a quantidade de peixes nos lagos e a planejar a pesca de forma sustentável.
Essa é uma das atividades desenvolvidas pela organização, que há mais de 30 anos gera oportunidades de renda sem abrir mão da conservação das suas riquezas naturais. Com o apoio do Projeto, seguirá fortalecendo esse legado e construindo um caminho mais próspero e sustentável para as atuais e futuras gerações.
Chegando a Tefé, viveiro e veículo são entregues para apoiar no cultivo e transporte da castanha-do-Brasil
Depois da visita aos lagos de Maraã, o grupo seguiu viagem pelas estradas amazônicas rumo a Tefé (AM), que fica a cerca de 520 km da capital amazonense. O destino foi a Comunidade Indígena Nova Esperança, da etnia Kokama, localizada na Terra Indígena Barreira da Missão e local da Associação Comunitária Indígena Nova Esperança dos Povos Kokama (ACINEPK).
A chegada foi marcada por uma recepção acolhedora, acompanhada de apresentação cultural tradicional do Povo Kokama e por momentos de troca entre os parceiros do Projeto e associados(as) da OSP. As lideranças comunitárias apresentaram a história da associação, os desafios enfrentados pelas famílias e a importância do trabalho junto ao Projeto para fortalecer a produção e garantir renda.
O momento ganhou ainda mais significado com as palavras do presidente da ACINEPK, Isaías Cruz, ao falar sobre a trajetória e impacto do Projeto. “Agradecemos por toda confiança, investimento e parceria que vocês têm dedicado à nossa causa, ao nosso território e ao nosso modo de viver. Para nós, do Povo Kokama, da nossa lei indígena, esse apoio representa muito mais que uma ajuda, é um reconhecimento da nossa existência, do nosso valor, da nossa cultura ancestral e do cuidado que temos com a floresta, com a terra e tudo o que ela nos dá, especialmente a nossa castanha”, fala emocionado.
Complementa: “Essa união forte entre o Povo kokama, o DEFRA, o MAPA, o BID e IABS, mostra que quando trabalhamos juntos, com respeito confiança e propósito, conseguimos proteger o que é nosso, fortalecer a nossa identidade, valorizar o fruto da nossa terra e promover o desenvolvimento justo, digno e verdadeiramente sustentável”, destaca o presidente.
Na programação, também teve a entrega de benefícios coletivos que ajudarão a fortalecer a cadeia produtiva da castanha-do-brasil. A Associação recebeu um veículo para o transporte da produção, ajudando a melhorar o escoamento, o acesso a mercados e gerar mais renda para as famílias associadas. “Esses recursos são muito mais do que bens materiais, são ferramentas de trabalho, de desenvolvimento, de preservação da nossa cultura e de valorização do que produzimos aqui. Com esse apoio, temos condições de seguir em frente, fortalecer cada vez mais a nossa produção de castanha, cuidar da nossa terra e garantir um futuro melhor para todos que aqui vivem”, compartilha o presidente.
O grupo também acompanhou a entrega de um viveiro comunitário destinado à produção de mudas de castanheira. O espaço vai permitir o cultivo mais perto da comunidade, sem precisar andar longas distâncias para coleta do fruto. Segundo o cacique da Aldeia Barreira de Baixo (Povo Kokama), Evandro de Carvalho: “Isso é de grande importância para todo o povo da aldeia que precisa andar mais de 2km para coletar a castanha. Então, esse Projeto tem ajudado todos nós a fazermos a coleta da castanha e ser, lá na frente, muito mais beneficiados do que já estamos sendo”, destaca.
Durante o encontro, Adam Devenish, representante do Governo do Reino Unido (DEFRA), reforçou a necessidade de ouvir as comunidades para orientar futuras ações e investimentos. “Agradecemos a oportunidade de conversar com vocês hoje para aprender com suas perspectivas e conhecimentos, o que nos ajudará a tomar decisões mais acertadas em relação às nossas políticas e investimentos. Estamos aqui para ouvir e aprender mais com vocês. Agradecemos imensamente”, finalizou.
A visita à Tefé (AM) permitiu conhecer mais da trajetória da ACINEPK, associação criada em 2013 por 20 famílias e que hoje reúne 92 famílias da etnia Kokama. Em meio aos desafios de viver e produzir na Amazônia, a comunidade construiu, com muita união, alternativas de renda a partir da castanha-do-brasil, da pesca, da farinha e de outros produtos da floresta. E, agora, os benefícios entregues chegam para fortalecer esse trabalho e criar novas oportunidades para as famílias que vivem da floresta.
A missão permitiu ao grupo de representantes do Governo do Reino Unido, do BID e do MAPA conhecer diferentes “Amazônias” e compreender mais sobre os desafios enfrentados pelas comunidades para produzir, gerar renda e manter seus modos de vida. A experiência reforçou a importância de projetos construídos em parceria com quem vive nos territórios, que valorizam os conhecimentos locais e incentivam soluções que façam sentido para o dia a dia das famílias e para a conservação da floresta.
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